Por:
LEILA NAVARROPublicado em: 18/05/2010
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Líder de sua própria vidaPor que será que, em todo o mundo, quanto mais se sobe na hierarquia corporativa, mais
rarefeita é a população feminina? Por que será que no Brasil, por exemplo, as mulheres
representam 50% da força de trabalho em geral, 35% do quadro funcional das empresas,
28% dos profissionais com nível de supervisão e 9% dos com nível de direção*?
Já identifiquei quatro modalidades de resposta a essas perguntas: a desatualizada, a
conservadora, a progressista e a inconformista.
Comecemos pela resposta desatualizada: "Mulher tem menos competência que o homem".
Chamo essa resposta de desatualizada porque, francamente, só quem continua com a
cabeça no começo do século passado, quando a mulher começou a luta por seus direitos,
pode dizer uma coisa dessas. A presença das mulheres em praticamente todas as profissões
existentes e o brilho com que muitas delas exercem suas funções mostra que competência
não é um fator determinado pelo gênero, mas uma qualidade do indivíduo. A realidade
mostra que tanto o homem como a mulher podem ser competentes.
Existe a resposta conservadora, que é: "O preconceito impede a ascensão da mulher no
mercado de trabalho". Não nego que esse preconceito exista. Já inventaram até uma
expressão para denominá-lo no mundo corporativo, "teto de vidro", ou seja, barreiras
invisíveis na cultura das empresas que mantêm a mulher longe dos cargos com
responsabilidade direta pelas operações. Mas por que chamo essa resposta de
conservadora? Porque alegar que há "tetos de vidro" sobre as cabeças femininas não as
leva a lugar algum. Há um certo conservadorismo em dizer "é o preconceito e não tem jeito"
e tudo continuar como está.
Existe a resposta progressista: "Algumas atitudes da mulher sabotam sua ascensão". Ainda
é um pouco raro ouvir essa resposta, mas pelo menos as mulheres já começam a despertar
para comportamentos culturalmente herdados que atrapalham sua ascensão na carreira e
desenvolver seu potencial para o sucesso.
Recentemente prefaceei a edição brasileira do livro de uma coach americana chamada Louise
Frankel. Título do livro: Mulheres Ousadas Chegam Mais Longe. A autora lista nada menos
que 101 erros que as mulheres cometem, a maioria deles inconscientemente, transmitindo
uma imagem pouco favorável para sua candidatura à alta liderança nas empresas. Trabalhar
pelos outros, por exemplo: a mulher tem a mania de achar que se não fizer certas coisas
ninguém mais fará, então se mata de trabalhar e não cuida de outros aspectos importantes
para a carreira. Só tem um detalhe: quem ganha promoções é quem apresenta o trabalho
pronto, não necessariamente quem faz o trabalho. Outra coisa que a prejudica é sua
dificuldade em fazer ou falar coisas que possam ferir os sentimentos dos outros. O nível de
tolerância feminino às vezes é tão elástico que ela chega a encobrir as falhas alheias. Pois
assim são muitas mulheres, que com freqüência priorizam as necessidades alheias em
detrimento das suas, recusam-se a participar do jogo político das empresas, são
compreensivas demais, solícitas demais...
Reconhecer essa situação é um grande avanço, e por isso chamei a resposta de
progressista. Aqui há uma perspectiva de mudança, mas uma mudança que parte da própria
mulher. Na medida em que ela identifica os comportamentos que a atrapalham na carreira,
poderá transformá-los e atravessar o malfadado teto de vidro, que aliás é em parte
sustentado por esses mesmos comportamentos...
Existe, por fim, a resposta inconformista: "A mulher não aceita sacrificar sua qualidade de
vida por um alto cargo nas empresas". Se para chegar ao olimpo corporativo é trabalhar 12,
14, 16 horas por dia, como faz a maioria dos executivos, algumas repensam suas prioridades
e procuram meios de conciliar as demandas do trabalho com vida afetiva, tempo para os
filhos, para o lazer e para ela mesma. Há as que brecam a trajetória profissional por vontade
própria, há as que saem da arena corporativa para realizar um trabalho autônomo ou
empreender um negócio, situação em que podem ser mais donas de seu tempo.
O interessante sobre essas respostas é que elas de certa forma reproduzem a trajetória
feminina no mundo do trabalho. Houve um tempo em que a mulher era excluída desse mundo
e suas competências nem eram conhecidas, quanto mais reconhecidas. Num segundo
momento, ocupou espaço no mercado e conquistou posições nunca antes sonhadas, mesmo
tendo de enfrentar o preconceito. Agora desperta para ajustes de comportamento, vai em
busca do que lhe falta, sai do papel de vítima e assume a responsabilidade pelo seu sucesso.
Por fim, se achar que o investimento na carreira não é compatível com o que deseja para sua
vida como um todo, muda de planos, de empresa, de atividade. Acima de tudo, a liderança
que realmente interessa para a mulher é sobre a própria vida.
*Segundo a pesquisa "Perfil Social, Racial e de Gênero das 500 Maiores Empresas do Brasil e
Suas Ações Afirmativas"- Instituto Ethos, 2003
 |  | LEILA NAVARRO CONSULTOR leila@leilanavarro.com.br
Palestrante comportamental, Fisioterapeuta de formação, Especialista no Comportamento
Humano e em Medicina Comportamental pela Escola Paulista de Medicina, empresária,
autora, e Presidente do Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento do Capital
Humano (IPEDESCH). Graças à repercussão de seu trabalho no Brasil, feito com
competência, conteúdo, irreverência, e motivação, Leila Navarro se consagrou também fora
do país. Suas palestras já foram apresentadas no Chile, Peru, Uruguai, Portugal, Espanha,
Panamá e Japão. |
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